Radiestesia!

Por Carlos Duarte de Abreu

Hesitei em escrever este artigo. O assunto tem alçapões e a sua frequência pode não ser agradável por se prestar a encenações.
O dicionário da Academia das Ciências nem sequer acolhe a palavra, o que diz da consideração que os sábios da língua lhe atribuem. Outro dicionário menor (preferindo a palavra radioestesia, do latim radiu “raio” do grego aisthesis “sensação”) define-a como a sensibilidade (outros dicionários dizem “suposta sensibilidade”) a qualquer espécie de radiação, a qual originaria a detecção dos movimentos de varas ou pêndulos manuseados por “alguns” indivíduos que “seriam” sensíveis, revelando assim a água no subsolo, minerais, etc. Destas pessoas, as mais conhecidas são os vedores, que até anunciavam os seus serviços de indicar onde deveriam ser abertos os poços. Os científicos contrapunham que água há sempre no subsolo, mais aquém ou mais além e, por isso o vedor pareciam ter sempre razão. E, cientificamente, os vedores vão sendo substituídos por aparelhos que fazem essa detecção.
Diz-se que um chefe chinês, há milhares de anos, se dedicava a isso. Mais modernamente, Galileu nos seus estudos sobre o pêndulo (o que se estuda na disciplina de Física), ter-se-ía interessado também pelos movimentos dos apetrechos dos vedores que procuravam água nas terras. Também há quem diga que o bíblico Moisés, ao bater com o cajado na pedra da qual jorrou a ansiada água, isso não seria mais do que uma deturpada descrição dum trabalho de vedor.
No século dezanove e até metade dos vinte, floresceram os estudos e publicações em revistas e livros sobre a radiestesia. Depressa se foi ao exagero, de boa e de má fé, com o seu cortejo de charlatães. Por exemplo, com um mapa procuravam-se pessoas a milhares de quilómetros. Se porções de alimentos ou de remédios eram indicados para esta ou aquela pessoa ou até animais. Como se vê, o terreno ficou lodoso.

Como é que tomei conhecimento do assunto que vou descrever? No “Notícias Agrícola” -1ª fase – li que na China havia indivíduos que utilizando um fio do qual estava suspenso um pedacinho de ouro, agarrado o fio entre o indicador e o polegar, assentando o cotovelo numa mesa, suspendiam esse pêndulo por cima de ovos para diagnosticarem (pelos seus diferentes movimentos) se deles sairiam machos ou fêmeas, para apartarem os ovos indesejados e destinarem os outros para a incubação.
Claro que experimentei, utilizando um anel. E a coisa parecia resultar. Por exemplo, nos pombos, no fim da época de criação ou desporto e antes da grande muda anual, acontece haver pombos a mais do mesmo sexo e que não convém eliminar. Então fazia nascer os exemplares do sexo desejado e o conjunto compunha-se.
Pensei então que a detecção deveria poder ser aplicável a aves pequenas, com exclusão das grandes por não poder pôr o pêndulo por cima delas, visto que tinha de apoiar o cotovelo direito na mesa. Experimentei e resultou.
A experiência que mais me marcou e que garanto ser verdadeira, consiste no seguinte: Um pombo macho foi morto. Extraíram-se-lhe os testículos. O pêndulo, posto por cima destes, dava movimentos de amplitude maior, mais enérgicos, do que dava o pombo em vida, como se a carcaça deste tivesse formado uma barreira que diminuísse a radiação. O mais notável é o que vou dizer a seguir. O pêndulo, posto agora por cima da carcaça, não deu movimento algum, como se estivesse por cima dum pedaço de madeira!

Alguém me deu uma página duma revista portuguesa (cujo título ignoro) ocupada com o assunto da radiestesia, em que um praticante no ramo da medicina falava em apontar o dedo para captar a radiação do doente. Daí deduzi que não é necessário pôr o pêndulo por cima do animal, o que constituiu uma boa viragem para a minha prática.
Então, com mais comodidade, passei a proceder assim com os pássaros: metia-os nesses vulgares transportes de cartolina com que as lojas vendem as aves. Sentava-me a uma mesa, pondo a caixa à esquerda e com a mão esquerda em cima desta. Com a mão direita segurava no pêndulo (com o cotovelo direito apoiado na mesa). É importante pôr a cadeira afastada o mais possível, para as pernas não ficarem muito debaixo da mesa, para que as próprias radiações não interfiram. Gracejando, direi que o operador é auto-sexável…
Mas agora surge um problema. Nalguns casos recorre-se ao pêndulo quando há dúvidas ou mesmo não se sabe qual é o sexo do pássaro. Convinha-nos que fosse macho ou fêmea conforme os casos. Então o pêndulo é gentil e faz-nos o que estamos a desejar. Diz o que nos agrada. Todavia, veremos mais tarde que o exemplar é o oposto daquilo que o pêndulo disse. E já tem sucedido dizer hoje uma coisa e amanhã outra.
Não se deve concluir logo aos primeiros movimentos do pêndulo. Há um breve período de “carburação”. Também sucede que depois dos movimentos, estes enfraquecerem e começarem lentamente a dar os opostos!
Por isso abandonei o assunto por o achar não fiável.
Os interessados poderão ler livros. Há imensa literatura. Curiosamente alguns autores são padres. E há alguma coisita em português

Há algum tempo um amigo disse-me que havia pêndulos à venda nas lojas de pássaros. Fiquei varado. Então, se comprovadamente há pessoas que são imunes as tais radiações, vende-se isto como qualquer apetrecho que qualquer pessoa pode usar?!
Há uns tempos fiz uma demonstração junto dum nosso conhecido dirigente, o qual ficou deveras desiludido por na sua mão o pêndulo ficar inerte. Então pendurou-o num gancho, e o pêndulo ficou igualmente quieto. Isto comprova o que atrás disse, de que “nem todas as pessoas são sensíveis”.
As pessoas que compram esses pêndulos, o que fazem? Põem o pêndulo (como dizem pudicamente) por cima do sexo do pássaro. Eu não seria tão fino a falar e diria “cloaca”. Perguntei a um se por vezes não lhe dava errado, ao que ele, que é uma pessoa séria, disse que sim. Outro disse-me redondamente que não.
Vejamos: o pássaro é muito pequeno e está envolvido pela enorme e grossa mão do amador. Não será crível pensar que as radiações da mão se sobreporão às do pequeno pássaro? Sugiro que os interessados mudem o seu sistema para o que atrás foi descrito.
Também acontecia ficar perplexo com o vigor das amplitudes que às vezes (poucas) o pêndulo tomava. Quase ficava horizontal. Interroguei-me sobre isto e não obtive resposta. Indicaria uma super-saúde? Um estado de maturidade sexual extremo?
Reparo agora que não disse uma coisa importante. Os movimentos circulares indicam fêmeas e os horizontais machos. E que o cobre pode substituir o ouro.
Mas actualmente para mim tudo isso são águas passadas. Não tenho resposta para as contradições que apontei e por isso abandonei o assunto.