Morugem!
Por Carlos Duarte de Abreu
Morugem: a grande verdura para todos os pássaros
Não se pense que os criadores dos países avançados do nosso hobby só usam produtos de laboratório, alguns dos quais chegam até nós sofisticadamente. Não direi que as “fábricas” de pássaros não os empreguem, e até outros que desconhecemos. Contudo, esses amadores têm usado muito as ervas. E sem receio, fruto da longa experiência infusa, o que quer dizer que sabem distinguir o trigo do joio.

Uma que é largamente utilizada (lá) é a morugem, erva humilde e apagada,
também chamada de orelha-de-toupeira. O seu nome científico é Stellaria
media.E foi citando este nome que Henrique Paquete disse nestas colunas
que era utilizada no “Loro Parque”, impressionante estação de criação de
psitacídeos em vias de extinção, que há em Tenerife e que serviu de pano
de fundo ao 5º Congresso Mundial de Papagaios.
Foi pela imprensa belga da especialidade que há muitos anos tive
conhecimento da utilização dessa erva, mas a identificação era difícil
por as gravuras que via não mostrarem o assunto com nitidez. Os artigos
de amadores eram entusiásticos, mas a impossibilidade de identificação
aguçava a minha curiosidade. Consultando a “Botânica Portuguesa” nada
adiantei de prático.
Até que numa das excursões em que tomei parte para visitar exposições
internacionais, numa das paragens turísticas, em Paris, o Arquitecto J.
M. Saldanha da Gama propôs visitar-se o mercado de levante de pássaros.
Foi lá que vi numa banca molhinhos de ervas (que me pareceram a tal)
envoltos em papel de jornal. Confirmei o nome com o vendedor. Estava
desfeito o mistério. E se estava à venda, é por que tinha procura.
Lembro-me de ter falado nisso com essa jóia de pessoa que é o consócio
Vitorino Martiniano.
Mais adiante, em Bruxelas, vi na caldeira duma árvore, um tufo dessa
erva. Claro que o arranquei. Não conto o que sofri para lhe dar ar, luz
e humidade durante o resto do trajecto.
Verifiquei que já conhecia a erva de vista, mas quando regressei não
sabia onde ir buscá-la. Reparei então que, sendo espontânea, até a há
nas ruas, rente às paredes, mas de folhas minúsculas e rijas devido à
falta de humidade, desaparecendo quando o calor aperta. Parte da minha
colheita inicial foi no leito duma rua sombria de movimento escasso. Mas
já digo, não para a dar logo aos pássaros, mas como ponto de partida.
Plantando-a, ela acabou por dar flores brancas de 4 mm de diâmetro,
cujas pétalas se fechavam à tarde e em breve caíam.
As sementes são tão minúsculas que nunca as vi. O vento levou-as e foram
germinando aqui e ali. Então fui-as apanhando e plantando em local
adequado. Foi a partir daqui que então as pude colher, não arrancando,
mas sim cortando com tesoura. Assim a planta vai produzindo novos
rebentos a aproveitar. Preferem uma meia sombra. A planta diz-se
prostrada, isto é, vai alastrando pelo chão, mas se tiver algo onde se
apoiar, sobe um pouco em altura. Cultivar-se-á entre plantas mais altas,
que lhe darão sombra e apoio. Isto pode ser em vasos, em qualquer
varanda (não usar adubos dos floristas).

Quem a obtiver em quantidade, por a poder colher em sítios húmidos e
sombrios, poderá secá-la (ao ar) para obter bom material de nidificação,
cujo odor afasta os piolhos vermelhos.
Investigando, aprendi que nos meios rurais, quando a pobreza era maior,
esta erva era apanhada para fazer saladas e sopas. Ela é tenríssima.
Melhor ainda, os boticários preparavam-na para as convalescenças e
anemias, males do estômago, da pele, anemias, lactação e contusões.
Rica em sais minerais, principalmente silício e potássio, cálcio, cobre,
ferro, fósforo, sódio, albumina, caroteno-provitamina A e ainda
vitaminas B e C.
Sucedeu que falei da erva a alguns amigos, enumerando as suas virtudes e
mostrando-a. Então um deles disse, com ar desconsolado “mas disto tenho
eu no quintal e arranco!”
Com efeito, num jardim a morugem comporta-se como infestante, havendo
até um herbicida próprio para a combater (e cujo nome me guardo de
citar).
Vou terminar com um alerta muito importante. Não se deve confundir a
morugem com o morrião. Este é uma planta parecida, mas é mais erecta e
maior, mais rija, ao passo que a morugem é frágil e prostrada. Além do
mais, as flores da morugem têm pétalas brancas de rápida queda. O
morrião é extremamente venenoso, de flores vermelhas. Este é o Anagalis
arvensis. Basta olhar para os dois nomes latinos para se ver que nada há
entre as duas.
Uma vez comparadas, não há perigo de engano.